Qu’il soit infini aussi longtemps qu’il durera.
                                                                                                                                                 (Que seja infinito enquanto dure.)
                                                                                                                                                 Saint Exupéry

                                                                                                                

                                                                                              MEU HIER ENCORE

          Ainda ontem eu tinha 20 anos, um corpo esguio e firme que abrigava muita energia e uma alma límpida, transparente. Guardo comigo uma espécie de cumplicidade de mim mesma com a jovem que fui, uma admiração narcísica, um orgulho, uma nostalgia doce, uma saudade profunda.

          Ainda ontem eu tinha 20 anos e não me lembro de ter economizado em sonhos, nem tampouco em fantasias. Fui menina curiosa, incentivada e aparelhada pela família para despontar intelectualmente. Tudo parecia contribuir, desde o colégio de freiras francesas, onde ouvi os primeiros sons rascantes da língua de Voltaire, o acesso aos bons livros até à familiarização com o piano da casa, onde revezavam os clássicos de partitura de minha mãe e o bebop* do jazz de meu pai. Foi por meio de tantos recursos simultâneos e cumulativos que forjei minha liderança, desde adolescente, começando a trabalhar muito cedo, aspirando ser independente pra “ganhar o mundo”.

          Ainda ontem eu tinha 20 anos e, como num passo de mágica, vi multiplicarem-se tantas formas de socialização que nortearam meu caminho: a música, as serestas, o teatro, a literatura, o cinema, a dança, o esporte….e até uma breve e tímida participação em grupo de formação política. E, assim, vivendo sempre no meio de um turbilhão de energias, acalentei desejos intensos e insondáveis, muitos deles contidos e adiados pelo medo de protagonizar estreias um tanto quanto pioneiras.

          Era um tempo poético, mas pleno de regras de obediência que não combinavam muito com quaisquer descobertas imprevisíveis. Aquela era a década de 60, um tempo de reviravoltas comportamentais no mundo inteiro, de quebra de tabus e paradigmas sociais e morais que deixavam de cabelo em pé nossos pais e nossa sociedade conservadora.

          Sim, eram os tais históricos “Anos 60”, que trouxeram uma avalanche de movimentos de contracultura capazes de contestar e desestabilizar valores e padrões sociais tradicionais, até em Itabira, cidade de ferro e poesia, emoldurada por poderosas montanhas de minério. E lá estava eu, recém-formada na Escola Normal, louca para questionar, contestar e polemizar, tentando ser moderna, cosmopolita, dona de um tempo novo e de uma nova concepção de vida, particularmente na condição de mulher. Mas, no auge da juventude, meus sonhos eram doces e pueris, quase ingênuos, amedrontados, claramente envergonhados por implícitas trocas de garantia. Afinal, a vida, por si só, era previsível e muito consequente na velha e tradicional Itabira.

          Ainda ontem, eu tinha 20 anos e me imaginava na cumeeira da vida, como se de lá de cima, tão poderosa, eu pudesse equilibrar-me no escuro, desafiando preceitos e preconceitos sociais, morais, de classe e de gênero. Estava tão obstinada em viver meus 20 anos que quase me escapou a inteligência histórica e interpretativa do meu tempo real. Demorei a perceber que a ditadura havia se instalado no país e roubava, cotidianamente, nossas liberdades, possibilidades e perspectivas. Sorte eu ter acordado a tempo de não usar viseiras eternas que me fariam tanta falta nos dias atuais.

          Ainda ontem eu tinha vinte anos e nem sabia a diferença entre Amor e Paixão. Lia e escrevia cartas, poemas, cantava e dançava, trabalhava, ensinava, viajava, namorava…..lépida e solta.
          Não era livre…ninguém era. Mas, eu tinha certeza de que sim.

0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x